Se alguém quisesse inventar o lugar menos óbvio para encontrar uma previsão inicial do iPhone, provavelmente escolheria uma entrevista longa, tranquila e filosófica em uma revista como a Playboy. No entanto, foi exatamente isso que aconteceu.
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Em meados da década de 80, com o Macintosh recém-lançado e a Apple passando por tensões internas, Jobs sentou-se para conversar com o jornalista David Sheff e acabou descrevendo um futuro onde a computação pessoal seria, acima de tudo, uma ferramenta para comunicação em massa.
Ele não disse “iPhone”, é claro. Mas plantou a semente de uma ideia que, décadas depois, se tornaria comum.
A entrevista que ninguém previu
A conversa, conduzida por David Sheff, permanece acessível em arquivos e compilações que preservam o texto completo. O contexto é fundamental: era 1985, o Macintosh acabava de chegar ao mercado e Jobs — já conhecido como um visionário e com um temperamento explosivo — estava numa época em que sucesso, pressão e conflitos corporativos se misturavam.
A surpresa não está apenas no meio; está no tom. Longe do típico discurso de lançamento, Jobs se permite refletir sobre criatividade, cultura corporativa e como a tecnologia muda a maneira como as pessoas pensam.
“O primeiro telefone da nossa indústria”
Entre as frases que soam quase proféticas hoje, uma se destaca pela audácia: Jobs comparou o Macintosh a um telefone. Em sua metáfora, a chave não era “processar dados”, mas sim permitir que as pessoas se comunicassem de uma maneira mais rica.
O texto revela sua ideia de que o Macintosh era “o primeiro ‘telefone’” da indústria. E ele conclui com outra imagem igualmente poderosa: que o Macintosh permitia aos usuários “cantar”, não apenas “falar”, porque adicionava tipografia, desenhos e imagens à comunicação.
Em resumo: Jobs já defendia que o computador pessoal deveria ser um meio expressivo, não uma planilha glorificada. Essa visão, colocada no caminho certo, acaba se parecendo muito com o que os smartphones se tornariam mais tarde.
A obsessão por redes: a casa conectada como destino
Outra pista importante da entrevista é sua insistência de que a razão mais convincente para ter um computador em casa seria conectá-lo a uma rede de comunicação. Essa frase foi citada muitas vezes porque, em 1985, a internet ainda era um tópico de nicho fora de círculos especializados.
Jobs falava de computadores conectados como se estivesse descrevendo o cotidiano atual: compartilhar informações, comunicar-se, acessar serviços, organizar-se. Não é um spoiler literal do iPhone, mas é uma intuição muito clara: a computação seria onipresente quando estivesse conectada.

Educação, ferramentas e a ideia de que a tecnologia molda o pensamento
A entrevista não se limita ao hardware. Jobs também aprofunda um tema que o obcecava: como as ferramentas transformam as pessoas. Em várias partes do texto, ele reflete sobre a educação e sobre o pensamento como uma habilidade aprendida, não um atributo automático.
O interessante é como ele conecta isso aos computadores: para ele, não eram apenas máquinas úteis; eram instrumentos que podiam elevar (ou moldar) a qualidade do pensamento, especialmente quando caíam nas mãos dos jovens.
Em outras palavras, o que hoje é discutido em relação a telas, atenção e hábitos digitais, ele já pressentia como um fenômeno cultural… 40 anos antes.
A verdadeira “previsão” do iPhone não é um dispositivo: é um propósito
Visto de 2026, o detalhe fascinante não é tentar forçar a ideia de que “Jobs previu o iPhone” como se ele tivesse desenhado um projeto secreto em 1985. O valioso é que ele já estava construindo o argumento fundamental:
- que o computador deveria ser pessoal e acessível,
- que seu uso principal seria a comunicação,
- que a conectividade transformaria a tecnologia em um eletrodoméstico do dia a dia,
- e que o design deveria permitir uma expressão fluida.
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Essa combinação é, essencialmente, o manifesto que mais tarde fez do smartphone o centro da vida digital. E sim, há um toque delicioso de ironia: uma das conversas mais profundas sobre o futuro “conectado” da Apple aconteceu no cenário menos associado ao futurismo tecnológico.
