Cientistas políticos e acadêmicos destacaram na segunda-feira que Bad Bunny estava certo ao enfatizar que “América” é um continente e não um sinônimo de Estados Unidos, um uso que muitas vezes surpreende os latino-americanos que vivem no país.
Essa ação do artista porto-riquenho foi controversa porque, nos EUA, “América” é usado como uma abreviação do país, explicou à EFE Omar Wasow, professor assistente do Departamento de Ciência Política da Universidade de Berkeley. “Para os cidadãos dos Estados Unidos, existe uma perspectiva limitada, que é a de que ‘América’ significa ‘Estados Unidos da América’. A maioria não pensa na América Latina, na América do Sul ou mesmo na América do Norte”, observou.
Em sua apresentação no Super Bowl, Bad Bunny deixou claro que “América” é o nome de todo o continente por meio da exibição das bandeiras da região, um dos elementos mais aplaudidos na América Latina e mais criticados pela direita estadunidense. O artista encerrou sua performance com o grito de “Deus abençoe a América!”, com uma bola que dizia “Juntos somos a América” e um desfile com bandeiras do Chile ao Canadá.
Um “Conflito” Geopolítico
A concepção de América de Bad Bunny entra em conflito com a do governo do presidente Donald Trump, que defendeu a mudança do nome do Golfo do México para “Golfo da América” e reviveu a Doutrina Monroe, que afirma que “a América pertence aos americanos”, referindo-se aos cidadãos dos EUA.
Portanto, o artista provocou um “conflito” com o “pensamento imperialista” de “muitos americanos”, disse à EFE o pesquisador porto-riquenho Cruz Bonlarron Martínez, autor do artigo “O Show de Bad Bunny no Super Bowl Foi Arte Política em Seu Melhor”, publicado na revista Jacobin. Ele considera a mensagem “desafiadora”, especialmente em um contexto marcado por tensões regionais e operações dos EUA na Venezuela.
A exibição de bandeiras estrangeiras no evento mais assistido da televisão americana atraiu críticas de figuras do movimento MAGA, como Matt Walsh e Laura Loomer, que chegaram a pedir uma operação do ICE contra os participantes. “O fato de compartilharmos o mesmo hemisfério não nos torna compatriotas”, escreveu Walsh.
Wasow explica que “grande parte do funcionamento da política americana atual gira em torno de símbolos, e a bandeira é um dos mais reverenciados, principalmente pela direita. Exibir outras bandeiras transforma tudo em uma competição de símbolos.”
“American Union”, de Bad Bunny
Em contraste com a opinião de Trump, que chamou a performance de “afronta à grandeza da América”, líderes latino-americanos destacaram a mensagem de união. A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, considerou a performance “muito interessante” e celebrou o fato de o artista ter mencionado todos os países do continente, incluindo os Estados Unidos e o Canadá.
Wasow, especialista em relações raciais e étnicas, enfatiza que a performance promove “intencionalmente” o orgulho em uma “identidade pan-latino-americana”.
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Embora Bad Bunny não tenha mencionado diretamente o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) como em discursos anteriores, Bonlarron Martínez afirma que a performance foi política devido ao seu simbolismo. “Ele usou todas as bandeiras da região e empregou a palavra América pensando na América como uma grande nação, não como Trump, mas como uma grande pátria. Foi uma performance bastante política”, declarou.
Pedro Pablo Cortés – EFE
