O contexto que envolve o filme explica sua magnitude.
Poucos sequências recentes estão sendo tão onipresentes quanto esta. O Diabo Veste Prada 2 é um acontecimento global cuidadosamente projetado que viveu sua estréia em Nova York.
Semanas antes de sua chegada aos cinemas, o filme invadiu aeroportos, redes sociais, vitrines e cafeterias. Capas e outdoors reproduzem a silhueta inconfundível de Miranda Priestly.
Marcas de consumo, como Starbucks, lançam produtos inspirados nos pedidos icônicos dos personagens. O filme está, literalmente, em todos os lugares.
UMA TENDÊNCIA
Essa saturação responde a uma estratégia de marketing que transforma o filme em uma experiência total. É preciso habitar o filme: bebendo-o, vestindo-o, comendo-o, compartilhando-o.
Nesse sentido, a sequência leva ao extremo uma tendência já visível na indústria cultural contemporânea de fundir narrativa e consumo na experiência.
A história que o filme propõe é, essencialmente, um olhar para trás. Nos transporta a um momento anterior à revolução digital, àquele limiar em que o mundo ainda não estava moldado por telas sensíveis ao toque e algoritmos.
O filme é, de certa forma, uma viagem ao último instante da era analógica, quando as revistas impressas ainda marcavam o pulso da moda e da cultura.
O filme original, O Diabo Veste Prada, foi lançado nesse contexto. Seu sucesso deveu-se, em parte, à sua capacidade de capturar o ecossistema das revistas de moda como centros de poder simbólico. Também por sua inteligência em ir além da etiqueta de comédia leve e explorar temas como ambição, sacrifício ou identidade profissional.
Duas décadas depois, esse mundo mudou radicalmente. As redações foram reduzidas, não existe a ideia de uma capa como emblema de poder, os modelos de negócio se fragmentaram e a autoridade cultural é marcada por influenciadores que precisam falar apenas de si mesmos.
CRUZAMENTO DE CAMINHOS
O Diabo Veste Prada 2 se situa precisamente nesse cruzamento de caminhos. É um filme que reflete, de maneira implícita, sobre o destino da indústria cinematográfica e do jornalismo.

O personagem de Miranda encarna essa tensão. Continua poderosa, mas seu poder já não é absoluto. Depende de forças externas, econômicas, tecnológicas, corporativas, que limitam sua margem de manobra. Andy, por sua vez, representa outro caminho. A possibilidade de se reinventar, de buscar sentido fora das estruturas tradicionais.
O filme também dialoga com seu próprio legado cultural. Frases, gestos e cenas do filme original foram absorvidos pela cultura digital, transformados em memes, referências e símbolos. A sequência brinca com esse arquivo compartilhado, o reativa e o ressignifica. Ao fazê-lo, apela tanto para a nostalgia quanto para o reconhecimento.
Mas talvez o mais significativo seja a resposta do público.
Embora poucos reivindicassem ativamente uma continuação, o interesse é massivo. Já foram vendidos milhões de ingressos pelo desejo evidente do público de voltar àquele universo, de reencontrar personagens que fazem parte da memória coletiva. Em um presente marcado pela incerteza, essa familiaridade tem um valor incalculável.
ENTRETENIMENTO GLOBAL
Em última instância, O Diabo Veste Prada 2 funcionará porque é um produto de entretenimento global integrado no consumo de massa. Mas também porque é um retrato da passagem do tempo. Retornamos a um mundo que já não existe, mas que ainda reconhecemos.
E isso, em tempos de mudança constante, torna-se irresistível.
Metro conversou com Meryl Streep e Anne Hathaway sobre sua participação no que certamente será o fenômeno cinematográfico do ano.
MWN: Vocês acreditam que o cinema, como o jornalismo, está com os dias contados com a chegada da inteligência artificial?
MS: O filme que fizemos em 2006 foi lançado um ano antes do surgimento do iPhone. Não havia iPhones. E aquela pequena máquina que hoje todos carregamos no bolso mudou radicalmente o mundo. Transformou o ecossistema editorial, a forma como consumimos informação e também nossa indústria.
Tudo se fragmentou. Antes havia certa estabilidade nos modelos econômicos; hoje vivemos em um terreno movediço, onde cada decisão parece provisória. Não diria que o cinema ou o jornalismo estão condenados, mas sim que são obrigados a se reinventar constantemente.

AH: Estou completamente de acordo com Meryl. O impacto da revolução digital foi tão profundo que ainda estamos tentando compreendê-lo. E quando você olha do ponto de vista de Andy Sachs, torna-se ainda mais evidente.
Na primeira película, ela tinha 22 anos, acabara de sair da universidade, tinha entusiasmo e ambição, mas pouca experiência de vida. Agora, passaram-se 20 anos. Ela viveu, trabalhou, tomou decisões difíceis. Já não é uma observadora do mundo, agora faz parte dele.
MWN: Como seu personagem evoluiu nesse período?
AH: Acredito que Andy adquiriu ferramentas que antes não possuía. Ganhou experiência, perspectiva e, sobretudo, confiança. E essa confiança não é arrogância, mas algo construído com o tempo, através de erros e aprendizados.
Agora, pode voltar ao universo de Miranda de outro lugar. Não como assistente, mas como alguém que pode olhá-la de igual para igual. Talvez até como uma potencial parceira. Essa trajetória é o que torna a história interessante.
MWN: O que nos conta essa segunda parte?
MS: O filme se passa 20 anos depois, em um mundo midiático completamente diferente. Miranda Priestly continua sendo uma figura poderosa, mas agora enfrenta algo que não pode controlar totalmente: a transformação estrutural de sua indústria. Runway atravessa dificuldades.
E então aparece Andrea, que seguiu outro caminho, mais próximo ao jornalismo investigativo, a um tipo de trabalho com aspirações mais amplas. Seu retorno não é casual: ambas precisam uma da outra. Estão, de alguma forma, no mesmo barco, tentando não afundar.
MWN: A química de vocês na tela continua sendo um dos grandes atrativos. Mudou com o tempo?
AH: O que recordo da primeira filmagem é que me sentia completamente sobrecarregada pelo talento de Meryl. Não só pelo que fazia diante da câmera, mas por como escutava. Isso foi uma revelação para mim.
Eu estava preocupada em fazer bem, em cumprir. Ela estava vivendo a cena de um lugar muito mais profundo. Aprendi muitíssimo apenas observando-a. Creio que nossa química nasce daí: de uma admiração muito real.
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MS: Na primeira película, nossa relação era diferente porque não nos conhecíamos. Cheguei à filmagem com uma atitude muito aberta, quase festiva, mas logo entendi que isso não funcionava para o personagem. Miranda não podia ser acessível. Então me isolei, me meti no meu próprio espaço, e isso marcou a dinâmica.
Nesta segunda parte, decidi fazer o oposto: me integrar, desfrutar do grupo. Anne já não é aquela jovem que começava; é uma atriz madura, com uma presença muito sólida. Foi uma filmagem muito feliz. Reencontrar Emily Blunt ou Stanley Tucci foi, além disso, um presente. Há uma energia diferente, mais relaxada, mais consciente.
