O regime talibã do Afeganistão assinou e começou a aplicar um novo Código Penal que gerou profunda preocupação internacional. De acordo com organizações de direitos humanos e meios de comunicação, este documento - chamado Criminal Procedure Code for Courts ou De Mahakumu Jazaai Osulnama - redefine as normas de justiça no país de uma maneira que afeta diretamente a vida de mulheres, meninas e também de crianças.
A parte mais criticada do texto é um artigo que parece permitir a violência doméstica sob condições muito específicas: um marido pode fisicamente punir sua esposa ou seus filhos desde que a agressão não cause fraturas ósseas nem feridas abertas visíveis. Somente nesses casos de lesões graves, e se a mulher conseguir comprová-los perante um tribunal, poderia haver uma pena máxima de 15 dias de prisão para o agressor.
Como interpretar a norma: guia completo para entender leis e regulamentos
O código classifica certas ações violentas como “discricionárias” (ta’zir), o que significa que nem sempre são consideradas crimes que devem ser punidos severamente pelo Estado. Na prática, isso implica que agressões que não deixam marcas visíveis ou fraturas não serão processadas como delito, o que para muitas organizações representa uma espécie de “normalização” da violência no ambiente familiar.
Ademais, o ônus da prova recai sobre a vítima: a mulher que denuncia abusos deve comparecer a um tribunal acompanhada por um tutor masculino (mahram) e comprovar fisicamente as lesões. Em diversos casos, esse tutor pode ser o mesmo homem acusado, o que estabelece barreiras adicionais para a justiça.
Direitos das mulheres no Afeganistão: contexto atual e desafios
Essas medidas surgem em um contexto de fortes restrições aos direitos de mulheres e meninas no Afeganistão desde o retorno dos talibãs ao poder em 2021. Relatórios das Nações Unidas e organizações globais documentaram uma redução sistemática das liberdades femininas, incluindo proibições no ensino médio e no trabalho, limitações de mobilidade e controle sobre a presença pública das mulheres.
O novo código substitui a anterior Lei de Eliminação da Violência contra a Mulher, promulgada em 2009, que visava proteger legalmente as mulheres de abusos e discriminação. Sua revogação e substituição por este marco judicial mais rígido tem sido vista como um profundo retrocesso em matéria de igualdade e direitos humanos.
Reações e críticas: o que dizem especialistas sobre o caso
A reação internacional foi imediata. A ONU, grupos de direitos humanos e líderes de diversos países expressaram sua reprovação. Críticos apontam que essa legislação não apenas normaliza a violência doméstica, mas também criminaliza as mulheres por atos como sair de casa sem autorização do marido, impondo até três meses de prisão em alguns casos.
Ademais, figuras religiosas e ativistas de diferentes partes do mundo condenaram a interpretação do regime talibã como contrária aos princípios de igualdade e dignidade humana. Algumas vozes dentro de comunidades muçulmanas têm pedido uma análise crítica dessas normas, argumentando que não representam os valores do Islã em relação à proteção e respeito à mulher.
O que significa para as mulheres e a sociedade afegã
Embora a lei se apresente como uma regulamentação formal, os efeitos sociais e culturais podem ser muito mais abrangentes. Especialistas alertam que a ausência de uma proibição clara contra a violência doméstica cria um ambiente onde as mulheres estão legalmente desprotegidas, mesmo em casos de abuso físico, psicológico ou sexual que não atendam ao limiar de danos visíveis.
Esse novo marco legal, juntamente com outras restrições impostas pelos talibãs, consolidou um sistema de justiça que, segundo críticos, favorece a impunidade e reforça uma estrutura social profundamente desigual. Direitos humanos internacionais, como a Convenção contra a Tortura ou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, estabelecem princípios contrários a qualquer forma de violência ou discriminação, desafios que agora enfrentam as mulheres afegãs.
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A aprovação do novo código penal no Afeganistão representa um momento crítico na história recente do país e levanta questões urgentes sobre a proteção de direitos fundamentais. Além das fronteiras, a notícia despertou um debate global sobre igualdade de gênero, justiça e a responsabilidade da comunidade internacional para promover e proteger os direitos humanos em todos os cantos do mundo.
