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Uso excessivo de redes sociais por menores preocupa especialistas e sociedade

Estudo de Market Analysis revela amplo apoio no Brasil para limitar o acesso de menores às redes sociais, seguindo medidas adotadas na Austrália

Children of different nationalities play online games or read social networks on mobile phones.
Uso excessivo de redes sociais por menores preocupa especialistas e sociedade Uso excessivo de redes sociais por menores preocupa especialistas e sociedade (Lacheev/Getty Images/iStockphoto)

A cena se repete em todos os lares. Um adolescente ou criança que nem sequer completou sua primeira década de vida passando minutos, que se transformam em horas, que se estendem por vários dias da semana ou quase todos os dias, sem tirar os olhos das telas de seus smartphones enquanto navegam pelas redes sociais.

As desculpas são variadas: tarefas educacionais, socialização com amigos, pausas recreativas, um respiro para os pais. Aparentemente, as redes sociais poderiam se tornar um aliado instrumental para supostamente otimizar a vida. Mas suas consequências não tardaram a chegar: vício e excessos no acesso e uso das redes sociais, aumento dos casos de depressão e autoimagem negativa, crescimento da violência, introspecção e atrofia de competências sociais, aumento de autolesões, hipersexualização e enaltecimento de modelos precocemente adultos e erotizados de comportamentos entre o público infantil e adolescente.

No Brasil, as reações diante desse excesso constituem um dos grandes consensos que transcendem divisões partidárias, religiosas ou estilos de vida, já que se transformou em um problema que angustia quase todos igualmente, sem distinções. Talvez seja por isso que o julgamento em curso na Califórnia contra as plataformas de redes sociais por gerar dependência em crianças e efeitos nocivos à saúde seja acompanhado de perto e tenha alcançado tamanha repercussão nos meios de comunicação locais.

Mães e pais de todos os perfis e estratos convergem em apoiar fortes restrições ao uso de redes sociais pelo governo para garantir a saúde mental e física de crianças e adolescentes. O “Chega!” australiano, como enunciado por seu primeiro-ministro, Anthony Albanese, ao proclamar a nova proibição de redes sociais para menores de 16 anos em dezembro de 2025, ressoa em nossa região.


De acordo com um estudo recente da consultoria Market Analysis realizado com mais de 1.000 adultos, três em cada quatro brasileiros (72%) aprovam a recente legislação australiana que restringe o acesso de menores de 16 anos às redes sociais. Esse percentual é semelhante ao registrado na própria Austrália.

O apoio brasileiro à regulação é amplo e transversal, manifestando-se de forma consistente entre homens e mulheres, pessoas com e sem filhos, diferentes posicionamentos políticos e perfis de uso digital. Entre aqueles que têm filhos menores, o apoio chega a 83,1%, o que em um ano eleitoral e onde as divisões de opinião são infladas pelas diferentes campanhas, pode se tornar uma bandeira vencedora.

A polarização, tão associada ao uso das redes sociais, se desvanece quando se trata de controlar problemas reais surgidos de seu uso cotidiano. Tal apoio confere plena legitimidade social a essa proposta, desmentindo parte da crítica à regulação ancorada na alegação de que discriminaria a liberdade de expressão de uma maioria ou se trataria de uma agenda restrita a grupos específicos ou nichos.

Gatilhos do apoio regulatório: estratégias e impactos essenciais

Assim como aconteceu na Austrália, onde o governo justificou a proibição para priorizar o bem-estar dos menores acima dos lucros dos gigantes tecnológicos, o apoio à regulamentação em nossa região está diretamente relacionado à percepção do impacto das redes sociais em crianças e adolescentes.

Em geral, quase seis em cada dez entrevistados acreditam que as redes sociais causam mais prejuízos do que benefícios para os jovens. Esta opinião é majoritária tanto entre pessoas sem filhos quanto entre mães e pais, e está associada a um maior apoio a medidas regulatórias. O resultado coincide com um relatório de 2024 realizado pelo InstitutoAlana, entidade defensora dos direitos dos menores, que indicou que três em cada quatro brasileiros percebem que crianças e adolescentes passam tempo demais na Internet.

A experiência individual de esgotamento digital também reforça a demanda por soluções regulatórias restritivas por parte do governo.

Responsabilização e expectativas de solução

A lei australiana foi defendida publicamente atribuindo às “big techs” e seus algoritmos a responsabilidade por suas omissões em proteger a infância. É a mesma lógica que hoje inspira Espanha, Reino Unido e França a propor legislações semelhantes. A restrição afeta todas as plataformas de redes sociais, incluindo Instagram, Facebook, TikTok, X, Snapchat e YouTube, que devem verificar a idade dos usuários, enfrentando multas milionárias em caso de descumprimento. A culpa é projetada claramente sobre as empresas.

No entanto, a maioria dos brasileiros que apoiam a restrição não apontam as plataformas como principais responsáveis. Apenas dois em cada dez acreditam que as empresas devem resolver o uso excessivo e seus efeitos nocivos, e 14,6% culpam o Governo. Em contrapartida, uma ampla maioria (61,2%) considera que a responsabilidade principal recai sobre pais e cuidadores.

Esse viés parece traduzir os problemas dos menores diante das redes sociais, não como resultado de mecanismos planejados para viciá-los (os algoritmos), mas como fruto da falta de voluntarismo ou inteligência dos responsáveis pelas crianças. A necessidade de mudar o eixo da natureza do problema é crucial, inclusive para neutralizar a eficácia das campanhas comunicativas das “big techs” em transferir o fardo para terceiros, como têm sabotado tentativas anteriores de limitar sua atuação, sob o discurso da liberdade de expressão e da soberania familiar acima da interferência do Estado.

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Essa auto-culpabilização excessiva também reflete a ausência de uma reflexão crítica e realista sobre os meios efetivos que os pais teriam para proteger seus menores dos riscos ocultos no uso excessivo das redes sociais. Este não deixa de ser um diagnóstico perverso, já que aponta para aqueles que mais sofrem as consequências negativas das redes sociais (depois de seus filhos) como os principais responsáveis.

Nesse contexto, o julgamento na Califórnia das grandes empresas de tecnologia poderia equilibrar o jogo a favor da saúde mental de crianças e adolescentes, repercutindo na legislação de nossa região e nos focos das batalhas eleitorais deste ano.

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